
No Brasil, uma pessoa que conhece as letras e consegue juntá-las para formar palavras é considerada como uma pessoa alfabetizada. Porém, ela realmente sabe ler?
Ler não é simplesmente o ato de decodificar códigos. A leitura também tem relação com a compreensão e interpretação do texto. Isso fica mais claro se pensarmos que também lemos outros objetos, como uma imagem, por exemplo. Uma imagem não tem palavras, mas a partir da sua leitura somos capazes de interpretá-la, ou seja, fazemos a leitura da imagem.

Imagem: Visitantes usando máscaras tiram fotos em frente à Mona Lisa, obra-prima de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre em Paris — Foto: Francois Guillot / AFP [Fonte]
Uma criança que ainda não aprendeu as letras também consegue fazer a leitura de imagens, inclusive podemos considerar que até mesmo as reações no rosto das pessoas são imagens a serem lidas. Até mesmo um bebê consegue ler as expressões de sua mãe. Então, apesar de ainda não serem alfabetizadas, essas crianças já sabem ler. Não era bem nesse sentido que Paulo Freire disse que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, mas acho que conseguimos usar essa frase aqui também.
Agora vamos pensar numa pessoa alfabetizada e que tenha o hábito de ler. É senso comum e também amplamente observado em estudos sobre o assunto, que o hábito de ler promove uma melhora na interpretação e compreensão de textos, além de uma melhora no poder de argumentação do leitor.
Porém, ainda que as pessoas tenham o hábito de ler, a linguagem usada no objeto de leitura pode dificultar a interpretação do que está sendo dito. Pensando em conteúdos científicos, muitas vezes a linguagem academicista afasta as pessoas, que acabam não compreendendo o objetivo do que foi escrito.
Por outro lado, quando as pessoas recebem uma fake news escrita de maneira informal, essa linguagem facilita que mesmo quem não tenha o hábito de ler, compreenda o que está sendo dito, ainda que seja uma mentira. Ao mesmo tempo, quando uma pessoa desmente esse fato, mas vêm com uma linguagem que não facilite a compreensão do que está sendo dito, estamos atrapalhando o processo de leitura.
Da mesma forma que é preciso que as pessoas saibam ler, de forma profunda, compreendendo a palavra, é preciso que as pessoas saibam escrever. Para a educação científica isso é completamente importante, apesar de ser recorrente a fala “sou de exatas, não preciso saber escrever bem”. Mas do mesmo jeito que ler não é somente decodificar um monte de letras juntas, escrever não é somente juntar essas letras em palavras.
É preciso saber fazer um texto (ou fala, ou imagem) que possa ser compreendida por quem vai fazer essa leitura. O tipo de linguagem aqui também importa muito, dependendo de quem é o público alvo que irá receber essa escrita. Quer ver um exemplo de diferentes formas de falar a mesma coisa? (ambos foram escritos pelo ChatGPT):
Texto 1:
A vacina é uma preparação biológica destinada a induzir imunidade adquirida contra uma doença específica. Ela geralmente contém antígenos derivados do patógeno causador da doença, seja na forma de proteínas, fragmentos de material genético ou formas inativas ou atenuadas do próprio patógeno. A introdução desses antígenos no organismo estimula o sistema imunológico a produzir uma resposta imune, envolvendo a ativação de células T e B. As células B produzem anticorpos que reconhecem e neutralizam o patógeno, enquanto as células T desempenham um papel na eliminação de células infectadas. Além disso, a exposição ao antígeno promove a formação de células de memória imunológica, que permanecem no organismo e permitem uma resposta rápida e eficaz em futuras exposições ao mesmo patógeno, conferindo imunidade.
Texto 2:
A vacina é como um ‘treinamento’ para o nosso corpo se proteger de doenças. Quando recebemos uma vacina, ela apresenta ao nosso sistema imunológico uma parte do vírus ou bactéria que causa a doença, mas sem que ele seja capaz de nos deixar doentes. Essa parte pode ser uma proteína, um fragmento de material genético ou até mesmo o vírus enfraquecido. O nosso corpo reconhece essa ‘parte’ como algo estranho e começa a se defender, criando ’detetives’ (anticorpos) que são capazes de identificar e neutralizar o vírus ou bactéria. Esses detetives ficam ‘de olho’ e, caso o vírus real volte, já sabem como agir rapidamente para nos proteger. Portanto, a vacina ajuda o corpo a aprender como se defender de uma doença antes de ser exposto a ela de verdade. Isso nos dá imunidade, ou seja, proteção.
E aí, qual você achou mais fácil de entender? E qual é mais fácil de o público não acadêmico entender, até mesmo crianças?
Esse tipo de habilidade passa também pelo poder de argumentação. E só alcançamos uma boa argumentação com uma base de leitura. Então está tudo interligado.
Isso vale para os cientistas conseguirem passar o conhecimento científico de maneira que as pessoas que não são da área entendam. Mas também aos não cientistas para que consigam interpretar o que leem e conseguir argumentar sobre isso, inclusive para mostrar se o que está sendo falado é válido ou não.
Ou seja, ler e escrever são habilidades importantes para todos, porque “ser alfabetizado é tornar-se capaz de usar a leitura e a escrita como um meio de tomar consciência da realidade e de transformá-la”, como diz a definição de alfabetização por Paulo Freire.
Ainda, como disseram os autores do artigo “Da descontextualização à contextualização do trabalho com a leitura na escola: Um olhar para a prática social”, “a leitura coloca o pensamento em movimento”. E só com o pensamento em movimento é que conseguimos ler o mundo, ter uma visão crítica e interpretá-lo.
Então vamos exercitar nossos cérebros!
Referências
NASCIMENTO, L. A leitura como prática social. Revista Gestão & Educação (maio), 2023.
LEITE, E. C. R.; LEITE, C. A. R.; FARIA, W. F. Da descontextualização à contextualização do trabalho com aleitura na escola: um olhar para a prática social. Akrópolis- Revista de Ciências Humanas da UNIPAR, v. 19, n. 1, p. 15-24, 2011.
CORDEIRO, J. S.; KARLO-GOMES, G.; SILVA JUNIOR, S. N. Leitura e (re)construção de identidades: olhares e perspectivas. Revista Humanidades e Inovação, v. 10, n. 10, 2023.
SASSERON, L. H.; CARVALHO, A. M. P. Construindo argumentação na sala de aula: a presença do ciclo argumentativo, os indicadores de alfabetização científica e o padrão de Toulmin. Ciência & Educação, v. 17, n. 1, 2011.
SASSERON, L. H.; CARVALHO, A. M. P. Alfabetização científica: uma revisão bibliográfica. Investigações em Ensino de Ciências– V16(1), 2011.