Feliz mês de março, mês chamado da mulher. No dia 8 recebemos flores nas ruas e parabéns dos amigos, mas você já pensou no papel histórico das mulheres em várias áreas da vida de todos que respiram?

Em primeiro lugar, sem as mulheres não existiríamos, pois é no corpo feminino que existem os ovários e o útero que gera vida. Segundo, que ainda vivemos em uma sociedade extremamente desigual em diversos aspectos, um deles a criação dos pequenos e afazeres domésticos.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2019, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres dedicam, em média, 21,4 horas semanais aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, enquanto os homens dedicam 11 horas semanais. O dobro do tempo senhoras e senhores.

Mesmo sendo um dado estatístico confiável, queria saber como essa pergunta foi feita aos homens e mulheres que participaram da pesquisa. Tempo gasto ou investido em algo pode estar relacionado a dois momentos: pensar sobre e agir sobre. Se a pergunta formulada aos participantes fosse diferente no sentido de contabilizar tempo gasto tanto pensando e planejando quanto agindo as tarefas pensadas e planejadas tenho certeza de que esse tempo estaria muito mais discrepante do que o captado pela pesquisa.

Mas, longe de entrar na seara de que homens precisam se responsabilizar mais sobre as tarefas domésticas e criação dos filhos, te convido a pensar uma outra coisa: imagine como esse peso das tarefas domésticas e criação dos filhos influenciou e ainda influencia de maneira negativa a presença e reconhecimento das mulheres na área das ciências e pesquisa? Vou focar mais especificamente sobre a presença das mulheres na área da química, pois é minha área de formação, mas tudo que eu falar aqui vocês pode ampliar para qualquer área que seja, porque continuará sendo pertinente.

Para termos uma boa ideia da presença e reconhecimento das mulheres na área da química, podemos considerar o Prêmio Nobel, uma das mais prestigiadas premiações internacionais concedida anualmente para pessoas ou organizações que realizaram contribuições excepcionais em seis áreas: Física, Química, Medicina ou Fisiologia, Literatura, Paz e Ciências Econômicas.

Desde sua criação, em 1901, até o ano de 2024, oito mulheres foram laureadas com o Nobel de Química, representando aproximadamente 4,1% dos 194 laureados no total. Em parte, esses dados traduzem o fato de que estudar era uma tarefa masculina até metade do século XX, restando para as mulheres uma posição de inferioridade erguida e apoiada por diversos mitos e religiões que intitulavam a mulher como subalterna. Portanto, na corrida do conhecimento as mulheres começaram atrasadas e, além de atrasadas, começaram sendo criticadas, repelidas e muitas vezes recusadas.

O processo de escrita da história em si, ou seja, fatos de que temos conhecimento agora graças à história registrada em documentos e livros, por exemplo, foi predominantemente dominada por, nada mais nada menos, que os homens. A presença das mulheres na ciência pode ter sido muito maior do que a que tivemos contato por termos sido negligenciadas ou subestimadas às épocas do registro. Um exemplo foi a esposa de Antoine-Laurent Lavoisier, Marie Anne Paulze-Lavoisier.

Lavoisier foi um químico francês reconhecido como o pai da química moderna. Marie Anne vinha de uma família rica o que lhe proporcionou acesso a uma educação de qualidade. Sendo letrada em línguas, ajudou na tradução de diversas obras que foram fundamentais para os estudos de Lavoisier, mas seu nome nunca apareceu nos trabalhos publicados.

Vou agora falar um pouco sobre as oito mulheres laureadas com o Prêmio Nobel: 1911, Marie Curie; 1935, Irène Joliot-Curie; 1964, Dorothy Crowfoot Hodgkin; 1963, Marie Goeppert Mayer; 2009, Ada E. Yonath; 2018, Frances Arnold; e 2020, Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier.


Marie Curie foi premiada pelo seu trabalho pioneiro no campo da radioatividade, descobriu os elementos radio e polônio e desenvolveu a teoria da radioatividade. Sua filha, Irène Joliot-Curie, recebeu o prêmio em conjunto com seu marido, Frédéric Joliot-Curie, por sua descoberta da radioatividade artificial influenciando pesquisas para o tratamento de doenças como o câncer.

Dorothy Crowfoot Hodgkin foi premiada por suas investigações sobre a estrutura de substâncias importantes como a vitamina B12, penicilina e insulina. Marie Goeppert Mayer contribuiu para a teoria nuclear, especialmente pela sua proposta de um modelo de camadas, explicando a disposição dos prótons e nêutrons no núcleo.

Ada E. Yonath foi premiada em conjunto com outros dois homens, por sua pesquisa sobre a estrutura atômica e a função de partículas celulares chamadas ribossomos. Frances Arnold foi premiada pelo seu trabalho em engenharia de enzimas capazes de promover reações químicas específicas e úteis, com aplicações em energia, saúde e indústria.

Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier foram premiadas pelo desenvolvimento de uma técnica de edição genética que permite uma maneira precisa e eficiente de editar o DNA em células vivas, revolucionando a biotecnologia e a medicina.

Todas pesquisas muito importantes para a sociedade e exemplo do que as mulheres são capazes quando tem acesso e reconhecimento, coisa que ainda não é para todas. E, para finalizar mas não menos importante, nenhuma mulher negra foi premiada no Nobel de Química. No geral, até 2024, somente duas mulheres negras foram premiadas: uma em Medicina, Marie Maynard Daly (1947) e outra em literatura, Toni Morrison (1993).

De verdade, não valorizo muito as flores e nem os parabéns que recebemos no dia das mulheres, mesmo sendo muito legal recebê-los de quem convive conosco e sabe das nossas lutas diárias. O que eu queria mesmo era os homens somando com a gente na tarefa de fazer a mulher brilhar tudo o que anos de exclusão e descrédito impediram.

Parem de ficar dizendo que uma mulher chegou ao cargo de chefia porque está de rolo com o patrão. Parem de achar que suas esposas precisam abdicar das carreiras para cuidarem dos filhos. Parem de chamar a ex de louca. Parem de agredir fisicamente e mentalmente as mulheres nos relacionamentos e na vida profissional. Briga com o seu amigo que é machista, reforça e mostra o que ele ta agindo errado.

Feliz março e parem de tolir as mulheres. Tolir significa impedir, suprimir ou restringir, verbos que toda mulher conhece bem graças a anos de ação de homens que cresceram graças a mulheres por trás dos bastidores de suas vidas. Agora, aja nos bastidores das vidas delas fomentando igualdade, olha que presente legal hein. Achei tendência, vamos aderir?